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Albamar: oito décadas de história e sabores às margens da Baía.

RIO — Aos 80 anos, o Albamar pode ser chamado de um sobrevivente, preso como se fosse uma âncora à beira da Baía de Guanabara. Primeiro, resistiu à demolição do antigo Mercado Central, onde era, além de um restaurante de frutos do mar nos andares de cima, o portão de entrada número 4. O torreão de ferro ficava numa das quatro pontas do centro de distribuição, espécie de Ceasa do início do século XX na Praça Quinze, com mais de 20 mil metros quadrados e que abastecia a cidade com pescados, grãos, frutas, verduras e legumes.
Aberto desde 1933, o restaurante teria a sorte de ser preservado como um símbolo desse passado, colocado abaixo no fim dos anos 50. Já na década de 90, funcionários e clientes assistiriam de camarote a outro golpe: a construção do mergulhão da Praça Quinze, que isolou definitivamente a pequena torre, localizada na Praça Marechal Âncora.
Uma terça-feira especial
Ao mesmo tempo perto de tudo e longe de todos (o entorno malcuidado e ermo afugenta o movimento de pessoas), o Albamar comemora seu 80º aniversário na terça-feira. Os festejos no velho restaurante, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), têm sabor diferente. À mesa, o gostinho é de antigamente, com um cardápio especial que revive os pratos e sobremesas que não saem da memória. Olhando para fora do torreão, com uma vista de 360 graus sobre a Baía de Guanabara e construções históricas, o presente está nas mudanças que o fim do grande elevado (que será demolido até dezembro de 2015) trarão.
No comando do Albamar desde 2009, o chef Luiz Incao (ex-Copacabana Palace) põe o restaurante no centro das transformações que ocorrerão na Praça Quinze:
— Eu acho que tudo referente a essa reforma (da área por onde passava a Perimetral) vai começar no Albamar. Afinal, aqui é onde começa tudo no Centro. É um prédio tombado, e as coisas antigas estão todas em volta.
À espera de obras de restauração
Expectativas à parte, é verdade que o próprio Albamar precisa de uma boa reforma. Basta olhar para a torre. A cúpula parece corroída, as paredes estão descascadas, e as venezianas verdes, malconservadas. Em setembro do ano passado, chegou a ser divulgado que o Ministério da Cultura havia aprovado um projeto que permitia captar R$ 1,8 milhão com empresas privadas para recuperar o imóvel (do Rioprevidência e hoje uma concessão) e transformar parte em centro cultural. Até agora, a restauração não andou, embora continue firme nos planos de Incao.
— Há muitos planos para o futuro. Penso em inaugurar um bar no térreo, abrir o teto do terceiro andar e valorizar a cúpula da torre. Quero ajeitar o jardim e colocar em prática o projeto inicial, desenvolvido pelo (escritório de) Burle Marx, mas que nunca saiu do papel. E, claro, a reforma da fachada está entre as prioridades — diz Incao, citando um projeto encomendado ao arquiteto e paisagista Haruyoshi Ono, que assumiu o escritório de Burle Marx, e a ideia de montar um bar de ostras no térreo.
Enquanto o elevado não vira poeira, dá para esperar essa revolução em uma das mesas elegantemente decoradas com jarros de flores e taças coloridas junto às janelas. Almoçar (a casa fecha à noite) dentro de um dos postais do Rio admirando uma paisagem viva — o vaivém dos catamarãs, os aviões no Santos Dumont, os barquinhos balançando ao mar — é uma experiência quase poética. Se a mesa ficar do lado esquerdo (em direção à Ilha Fiscal), provavelmente o cliente será servido pelo espanhol José Sousa Novoa, o seu Pepe, de 70 anos. Funcionário mais antigo da casa, ele tem um tipo bonachão e é o bom humor em pessoa. Em 50 anos de serviço, ele coleciona inúmeras histórias, muitas envolvendo gente importante.
— Vi uma vez da janela uma senhora de preto passando. Nessa mesa (aponta para a última do salão), um grande empresário jantava com a amante. Essa senhorinha entrou e apontou uma arma para ele, que me fez de escudo... — lembra Pepe, tentando fazer a ação. — Outra vez, uma mulher estava aqui com outro (ele aponta para a mesma mesa) e o marido chegou. Cobrimos a mulher com as toalhas.
Cardápio especial à mesa
Pepe já atendeu a políticos de todas as correntes. Talvez pela proximidade com o poder e a tradição do lugar, a classe sempre prestigiou o Albamar. Ele lembra de Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek, Leonel Brizola, Castelo Branco e Celso Pitta. E recorda os pratos preferidos: Lacerda, frequentador assíduo, pedia sempre um linguado grelhado com purê, banana frita e molho de alcaparras. No passado, o chique era servir a comida à francesa: “empratado” era do pé-sujo, segundo Pepe. Hoje o carro-chefe é um filé de cherne grelhado com crosta de castanhas de caju, acompanhado de juliana de legumes e chutney de banana da terra.
Na semana de aniversário, a clientela verá um cardápio à moda antiga, com releituras como a do doce Mineiro de Botas. Uma mistura de queijo prato, goiabada, banana e ovos, que revela um sabor de infância, de casa da avó.
— Um grupo de ex-alunas do Instituto de Educação veio comemorar aqui 59 anos de formadas. Uma delas não vinha desde a morte do marido e pediu, para relembrar o passado, o Mineiro de Botas. Comeu chorando — conta Carlos Henrique Teixeira, responsável pelos eventos do Albamar.


Data: 10/11/2013
Assunto: Albamar
Veículo: O Globo Online
Seção: Rio
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