RIO - O secretário estadual de Fazenda, Julio Bueno, deixou o cargo nesta segunda-feira em meio a um quadro sem precedentes de crise nas finanças do Rio. Em seu lugar, assumirá o presidente do Rioprevidência, Gustavo Barbosa. A informação foi antecipada por Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO. A exoneração será publicada hoje no Diário Oficial. Bueno, no entanto, não deixará o governo: ele será assessor especial do governador interino Francisco Dornelles.
Diante de um quadro de salários atrasados e demora no repasses de recursos para áreas essenciais, como saúde e educação, Bueno se tornou alvo da bancada do PMDB na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Ele havia sido chamado para, nesta terça-feira, prestar contas dos problemas de sua gestão aos deputados da Casa.
CRITICADO PELO PRESIDENTE DA ALERJ
Bueno vivia um desgaste à frente da secretaria por não ter experiência na área fiscal. Por esse motivo, enfrentava insatisfação até mesmo de auditores fiscais. O presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB), chegou a dizer que o secretário estava deslocado no cargo.
Também não faltava fogo amigo dentro do governo. Na Alerj, na última terça-feira, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, deixou claro que tinha dificuldade de planejar o combate à violência porque a Fazenda não cumpria o calendário de pagamento do Regime Adicional de Serviços (RAS), sistema em que o policial trabalha em seu dia de folga. Já o secretário de Saúde, Luiz Antônio Teixeira, disse que os repasses de Bueno só atingiam 4% do limite mínimo de 12% para o setor.
Em junho, os ataques ao secretário de Fazenda Bueno partiram de Paulo Melo, titular da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos. Melo disse que Bueno sofria de “insensibilidade generalizada” ao não fazer os depósitos para 13 milhões de beneficiários do programa Renda Melhor, que dá auxílio de R$ 30 a R$ 300 para famílias miseráveis do estado.
A gota d’água teria ocorrido na semana passada, quando Bueno enfrentou um protesto de servidores em frente ao prédio onde mora, na Lagoa. Na ocasião, o secretário foi fotografado a bordo de um carro de luxo. O veículo está registrado no Detran-RJ em nome da Citroën. A empresa recebeu do estado um incentivo fiscal de R$ 3,7 bilhões, dos quais pelo menos R$ 850 milhões foram utilizados para a expansão de sua fábrica em Porto Real. A Fazenda alegou que o veículo foi cedido pela montadora em comodato, de graça, e que há outros cinco automóveis na mesma situação, que servem autoridades do estado.
DOIS SALÁRIOS, NUM TOTAL DE R$ 65 MIL
A gestão de Bueno no estado foi marcada por uma política de incentivos fiscais. Segundo o Tribunal de Contas do Estado (TCE), somente entre 2008 e 2013, o estado teria concedido R$ 138 bilhões em incentivos.
O secretário também se viu em meio a uma situação constrangedora, em junho, quando veio à tona a informação de que ganhava R$ 65 mil mensais, superando o teto constitucional. Engenheiro metalúrgico, Bueno é funcionário de carreira da Petrobras. Ele assumiu a Fazenda em fevereiro de 2015 e recebia salários dos dois cargos.